quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tipos de silêncio

Tipos de silêncio

Há uma onda de exaltação ao silêncio. Textos e vídeos têm sido divulgados para valorizar e enaltecer essa necessidade. Visceral e incisivo, com reações automáticas, confesso que reconheço virtudes apenas em um tipo de silêncio: inteligente.

 Entre responder um insulto de alguém que fala reagindo sem pensar, calar-se é uma boa decisão. Isso pode ocorrer no trânsito, numa atividade esportiva ou numa discussão. Uma resposta nessas horas pode implicar dano infinitamente superior ao provocado pela ausência da réplica.

Contudo não consigo digerir outras situações. As opções para esconder omissão, covardia e desprezo. Não me é compreensível que alguém se omita diante de um compromisso social e, ao ser indagado, não responda, que deixe quem o trate com distinção aguardando uma decisão e este, além de não agir, se mantém calado.

Esse tipo de silêncio tem sido banalizado nas redes sociais, aquele envio de mensagem que termina com um ponto de interrogação. A pessoa visualiza, mas não responde. Muitos ainda não se deram conta de que as redes sociais tornaram-se um dos poucos momentos de atenção de que os seus semelhantes dispõem, e por trás das máquinas existem seres humanos em busca de um aceno que dê sentido as suas vidas dilaceradas por um mundo às avessas e também almas que querem anunciar  um novo dia, compartilhar bonanças.

Em alguns casos, que me incomodaram muito, fui averiguar a fundo o motivo do desprezo e, um aqui outro ali, descobri que a pessoa não estava num bom momento ou visualizou numa hora em que não poderia responder e acabou esquecendo. Na maioria das vezes, o silêncio facilitou a vida de covardes que não conseguem argumentar sua posição contrária a que foi questionada. O silêncio funcionou como escudo.

Errado ou não, se alguém assim se sente protegido, nesse silêncio ficam as nódoas de um fruto fadado ao apodrecimento, e as marcas do esmaecem na mesma proporção que a ausência de diálogo permite a construção de um caráter com base em ressentimentos
Todavia o que percebo é que se institucionalizou o silêncio como “preguiça” de explicar o porquê de não querer ir a uma festa, viagem, churrasco, reuniões etc. Há muita gente se “queimando” socialmente e em breve vai lamentar a ausência de convites. A vida é assim, para que insistir com indisponíveis se já se sabe que não pode contar com eles?

Por essas e outras é que se necessita atentar-se para desgastes decorrentes das amizades virtuais. Há muita gente disfarçando desprezo virtual nas ruas com amarelos acenos, assim como outras apressando o passo para recusar a mão estendida. Multiplicam-se as faltas de expressão e gestos de seguir em frente, deixando as marcas da incompreensão.

Muitos não se deram conta de que vivem um novo tempo, e neste está inserido a realidade virtual, movida por sangue, suor e lágrimas. Lá está reprodução de nossa relação com o mundo. E um mundo cada vez menos tolerante com o silêncio.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

NAS RUAS - Sargento Lago



Nas Ruas

Sargento Lago
Arranjos: William Magalhães
Feat. One Girl
2017


NAS RUAS

Eu sou pago pra morrer, mas insisto em viver, mesmo tendo feito um juramento
Sou treinado pra matar, mas insisto em amar, valorizo esse sentimento
Transito entre putas e vagabundos, viciados moribundos, miseráveis sem paz
Também entre ricos delatores, os piores malfeitores, que tem muito e querem mais
Pouco cuido da minha família, mas eu morro um pouco todo dia por você... Nas ruas

Filho da luta, para-raio,o que faço no trabalho agrada um o outro não
Eu cumpro a lei, que lei é essa, aceita só quando interessa e eu que passo por vilão
Não me enxerga quando eu preciso, mas insisto com o compromisso por você... Nas ruas

Lado a lado...




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Intrigas sociais


Intrigas sociais

Da virada do século para cá vivemos o boom das redes sociais, mas ainda estamos aprendendo a lidar com ela. Frequentemente as pessoas se desentendem nas redes ou por mal- entendido ou mesmo por não aceitar a postura do outro.

Acabei de presenciar um caso em um dos muitos grupos de whatsapp de que participo.

Com a finalidade de agregar veteranos de uma antiga unidade  em que trabalhei, o grupo foi criado com entusiasmo, e todos faziam festa para cada novo membro agregado.

Regrado por um código de ética, necessário para um bom convívio, tal como não postar pornografia, o grupo seguia animado e abordava vários assuntos, sobretudo as recordações do tempo de caserna. Entretanto, bastaram algumas discussões políticas levantadas por alguns participantes para o grupo rachar.

Sabemos que o futuro sempre rende ótimas projeções, mas falar do que vivemos juntos no passado uma hora esgota o assunto.  Por isso, temas clichês, como futebol e política, passam a ser rotina.

Os que não gostam de política entenderam que o grupo havia desviado da sua finalidade; então, o administrador, que também não gosta, proibiu o tema e criou um novo grupo para quem quisesse falar de política, o que, naturalmente, foi encarado como censura ou castigo.

Mas qual grupo que subsiste apenas com bom dia, boa tarde e boa noite, geralmente acompanhado de uma foto com florzinha, anjinho ou um rio margeado por gramas? E quem não gosta de futebol o que fala? E se a piada que um conta não tem graça para o outro? Eu mesmo tenho um humor peculiar.

Nos grupos de que participo pouco escrevo, prefiro os textos mais explicativos a sintetizar tudo num “tmj” (tamo junto).

Vejo publicações, em sua maioria, que não me agradam. São bizarrices pornográficas e do cotidiano, crimes e cadáveres, seres humanos expostos em sua fragilidade (pegadinha do Faustão acaba sendo fichinha perto dessas) e, embora também tenha o desejo de sair dos grupos, avalio que essas postagens são reflexos da sociedade em que vivo.  Fácil descobrir isso. Nos portais de notícias, as “grandes manchetes” me informam que o decote da atriz foi elogiado ou coisa da mesma proporção de importância. Tenho a opção de clicar ou não, como tenho o poder de decidir entre abrir uma foto, ler ou não os textos nos grupos.

Boa parte das pessoas que está nas nossas redes sociais viveu conosco em algum momento. E certamente era do mesmo jeito que hoje nos incomoda, ou seja, as pessoas não mudam. Se ela foi merecedora dessa reaproximação, após tanto tempo, é porque de fato é alguém que também construiu uma história digna e que merece o nosso respeito. Ou exercitamos a complacência pelo prazer do convívio social ou nos ilhamos. Não seremos agradados com frequência da mesma forma que também não agradamos.

Num encontro com outro grupo de amigos, um deles me falou uma coisa que me fez pensar: - Lago, eu só existo porque você existe. A minha história só existe porque você é testemunha. – De fato, de que adiantaria ter vivido tudo que vivemos se estivéssemos isolados num canto sem ter com quem compartilhar?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Os ensinos de Belém


 Há quase três meses não escrevo. Exatamente o período em que deixei São Paulo para percorrer o Nordeste, até chegar ao Norte. Precisamente a Belém, no Pará.

Envolto por tantas novas imagens que surgiam a minha frente a cada momento, dediquei-me aos registros em foto e vídeo. Todavia, na capital de todos paraenses, fui impelido às escritas.

Em razão da contenção de despesas, recorri inicialmente à hospedagem no quartel. Como sempre, fui muito bem tratado e alvo das atenções de todos, em razão da curiosidade do trabalho que realizo conhecendo as polícias militares do Brasil. Confesso que minha carência de atenção fica preenchida nessas ocasiões, motivo pelo qual sempre necessito, no momento seguinte, de um retiro, solitariamente confabulando com os meus pensamentos. Por isso decidi que, após três dias, era hora de procurar um hotel.

Não foram três dias, mas quase três meses de minha viagem, durante os quais fiquei em ambientes militares. Finalmente, optei pelo hotel que havia me hospedado há seis anos, quando aqui estive. Juntei minhas coisas, sempre espalhadas por onde passo, que, por representarem unidade especializada, chamavam mais a atenção dos meus anfitriões, e segui para o endereço no centro de Belém.

Havia esquecido que teria de subir dois andares, com quatro lances de escada, sob calor intenso e muita bagagem para arrastar. Todavia estava feliz pelo retiro, que durou pouco.

O cheiro forte de cigarro; o chuveiro - que parecia um chafariz entorpecido, que molhava todo o banheiro, mas se esquivava de cair sobre minha cabeça- e o wi-fi prometido que nem sequer aceitava a senha anunciada pela recepção, foram suficientes para me arrepender de ter saído de onde vim. Em razão do anoitecer que se pronunciava, resolvi ir ao sacrifício. Sim, sentia-me nessa condição.

Logo que amanheceu, saí à rua com alguns endereços de hotéis e fui verificar in loco. Andei muito. A camiseta ficou encharcada. Nos dois primeiros endereços, escolhidos por serem os melhores para o orçamento que dispunha, nem sequer entrei nos hotéis, pela localização. “Aqui é trash!” Informou-me uma pessoa ao consultá-la.

Depois de muito andar, decidi falar com uma dupla de policiais que fazia o policiamento ostensivo a pé. E dessa conversa cheguei a um hotel na avenida Presidente Vargas. Gostei, busquei as malas e aqui estou. A surpresa é que com apenas dez reais a mais eu tenho um serviço muito superior ao que tinha no outro. Ar-condicionado e internet funcionam, sem odor inconveniente, de qualquer natureza, e com elevador. Com o plus de uma melhor localização.

Perto do almoço, descobri que numa rua lateral havia um bom restaurante. Quase sempre sou levado à economia, em razão das altas despesas que uma viagem produz, mas também não economizo quando estou com a autoestima abalada. Assim se deu a confluência de nossos interesses. Tudo agradável além de uma ótima comida. O preço nem era tão fora da realidade.

Da minha mesa, enquanto degustava um drink antes da refeição, fiquei a observar as pessoas. E, entretido em pensamentos de como seria o viver de cada um naquela cidade, decidi que era hora de comer. Havia lido na internet que o salmão grelhado era um atrativo à parte, por isso fui compelido a experimentá-lo.

Quando retornei com meu prato e iniciei a refeição, não sei por qual motivo, meu olhar foi conduzido para o lado de fora do restaurante. Minha mesa tinha uma posição privilegiada e podia observar tudo lá fora. Vi que do outro lado da rua, sentada na calçada, uma mulher, aparentando uns vinte e poucos anos, magra e com semblante parecido aos usuários de drogas que perambulam pela cidade, se alimentava com uma quentinha. Pensei em fazer uma imagem mostrando esse contraponto do local em que estava, com ar-condicionado, e aquela mulher, no calor e naquela situação desfavorável. Mas confesso que meu apetite não me permitia interromper a refeição. De fato aquele salmão era maravilhoso. Todavia fiquei trocando olhares com a cena da mulher, e sua quentinha, e o meu salmão. Quando finalizei meu almoço, crente de que teria tempo de fazer a imagem, ela amassava o alumínio. Na olhada seguinte, já havia desaparecido.

Retornei rapidamente ao hotel buscando acolhimento no ar-condicionado e me pus a escrever. Senti apossar de mim a sensação de um privilégio, desta dádiva de se apoderar do momento e tatuar na alma o semelhante muito além de sua imagem. O humano com suas lições de eternidade.

Num tempo em que a selfie é quase uma obrigação e o registro do instante, ostentação, voltei às letras e captei o átimo pungente e gratificante. A dor com que aquela mulher digeriu o meu salmão em minhas entranhas ofertou-me uma compreensão do meu mundo que eu não esperava até então: as diferenças são grandes e convivem lado a lado. O que é pobre, o que é rico depende da forma com que queremos olhar para o tudo. Foi assim que percebi que naquele quentinha cabe o mundo, porque aqueceu meu coração.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Rio Grande do Norte - O RETORNO

PARAÍBA O retorno