quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Preconceito: Não dá para não criticar!

Ilustração: Latuff Cartoons

Falar sobre preconceito é fácil quando se restringe apenas a sua ideologia. Mas me atrevo porque, ao fazer uma análise de consciência e revisitar a própria memória, concluí o quanto fui plural nas minhas relações. Falo de envolvimento, sentimentos de amizade ou de amor. Algo concreto, prático, intenso.

Já tive amigo intelectual e ignorante, estuprador, estelionatário, assaltante, assassino, psicopata, drogado, homossexual, negro, branco, estrangeiro, nortista e nordestino, sulista, sudestino e centroestino, político, padre, pastor, rabino e pai de santo; mantive casos com prostituta, bissexual, depressiva, moradora de mansão e favela, empresária, faxineira, nova, velha, bonita, feia, gorda, magra, branca, negra, brasileiras e estrangeiras; bebi em taça de cristal e copo de requeijão, vesti linho, flanela, frequentei bons restaurantes e comi quentinha na periferia; viajei em aeronaves e de carona, na boleia de um caminhão; conheci Paris e o sertão; a riqueza, a miséria, pessoas bem-sucedidas, fracassadas; quem ria e quem chorava. Cantei rock, forró, samba, reggae e gospel. Torci pelo campeão e pelo rebaixado. Chorei com histórias de superação, filmes de amor e também sorri com humor inocente.

Em todas essas experiências sensoriais mantive a base da minha formação familiar, religiosa e social, permitindo, contudo, que os meus conceitos fossem aprimorados.

Descobri que atrás desses rótulos existiam pessoas, seres que, em algum momento, nossa semelhança humana nos aproximou, embora eu não tivesse a afinidade com suas crenças, práticas, atitudes e comportamentos. Isso me fez uma pessoa melhor. Não que eu tenha alcançado a perfeição, apenas me tornei muito melhor do que poderia ser caso não tivesse absorvido os ensinamentos dessas relações.

Nesta semana recebi a mensagem de um jornalista, em resposta a uma sugestão de pauta para o meu livro “Papa Mike – A realidade do policial militar”, onde ficou claro que recusava a sugestão simplesmente pelo preconceito aos policiais.

Preconceito à parte, o mínimo que eu esperava desse vagabundo é que ele lesse o livro. O adjetivo não se refere ao disfemismo de concluir que seja um marginal, mas ao fato de que ele nem sequer teve a dignidade de ler a obra antes da contraindicação aos seus leitores, simplesmente por tratar-se de uma temática e de um autor policial. Tenho certeza de que se teria surpreendido, como tem acontecido com muitos outros colegas dele.

O mundo está repleto de pessoas assim, as quais dão ao preconceito suas mais perversas roupagens, todas elas repugnantes, todas capazes de subtrair dos seus semelhantes as diversas oportunidades.

Aqui vai meu gesto de repúdio à atitude de alguém que tanto invoca a liberdade de expressão. Faço-o com a responsabilidade que a mim atribuí: denunciar toda a espécie de apartheid social e contra ela lutar.

Ao nobre jornalista só tenho a dizer que a forma preconceituosa com que me tratou não vai atingir os propósitos de quem discrimina, qual seja, conviver com as diferenças e com as vozes dissonantes. Nessa questão, pior para ele que não leu o livro. Certamente passaria a ter muitos outros argumentos para falar mal da polícia, caso um dia decidisse largar as fileiras dos covardes.

* Texto publicado originariamente na coluna do Sargento Lago no Portal Stive

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Veterano sim, ocioso não.


Foto: Marco Aurélio Olímpio

Em 2011, ao chegar a Recife, surpreendeu-me positivamente tomar conhecimento da existência da Guarda Patrimonial, criada em 1994 e composta, em sua totalidade, por cerca de três mil policiais e bombeiros militares inativos – do comandante à sentinela. A unidade fazia guarda do quartel, segurança de autoridades e presídios, entre outras atividades.

Inicialmente, a remuneração correspondia a 55% do salário bruto de cada militar na aposentadoria. Atualmente, o salário está sucateado, e as praças, de uma forma geral, recebem em torno de 850,00 reais. O reflexo dessa desvalorização levou a redução do efetivo a 2.500 componentes, por desinteresse dos militares.

As atividades da Guarda Patrimonial são diversificadas e contemplam serviços que a experiência de cada profissional, cultivada ao longo dos 30 anos de lida, possibilita suprir a demanda de uma cidade cosmopolita com excelência. Mas o benefício não se restringe à atuação dos veteranos, pois a liberação dos policiais que se encontram no fulgor da juventude para o calor do front, onde o crime exige pronta resposta, em decorrência dessa iniciativa, afigura-se uma gestão pública bastante eficaz.

Nesta semana, numa inédita oportunidade, policiais veteranos de São Paulo e outros estados foram convocados para 30 dias de serviços nas olimpíadas, no Rio de Janeiro, para trabalhar seis horas por dia, no monitoramento das esteiras e do raios-X, que controlam o acesso nas praças desportivas . Receberão pelo mês de trabalho 16 mil reais.

O exemplo do Pernambuco e desta oportunidade nos Jogos Olímpicos deveria ser seguido pelas demais corporações. Essa mão de obra qualificada que fica ociosa após a aposentadoria deveria ser “veteranizada” (Criei o adjetivo em referência aos veteranos porque acredito que ficaria melhor que “recrutada”, que, embora se refira a recrutamento, lembra o “recruta” que, definitivamente, estes não são). De preferência com a mesma valorização que terão nos próximos 30 dias.

Ganhariam todos. O veterano, pela ocupação e pelo reforço na renda. A corporação, pela qualidade do serviço e liberação dos novatos para a atividade-fim, e o estado, pela economia dos altos gastos gerados na formação dos novos profissionais.

*Texto publicado originariamente na coluna do Sargento Lago no Portal Stive

Força ou Impotência Nacional?



Certa vez, enquanto aguardava a abertura do semáforo, atento, olhando para todos os lados, em razão de estar fardado, observei que um velhinho, magro, cabelos brancos, vinha em minha direção. Ele estendia a mão de carro em carro pedindo ajuda financeira. Nem costumo dar dinheiro na rua, pois o nosso cotidiano está impregnado de gente de caráter duvidoso, que se passa por necessitado, porém aquele senhor trazia uma sinceridade na expressão que desafiava minha resistência de cidadão cioso. Tinha um ar do aposentado cuja renda não lhe permitia comprar o próprio remédio.

Ao selecionar umas moedinhas no console, pronto para um ato humanitário quase inédito, percebi que aquele homem recolheu-se ao identificar-me a farda, e, todo ressabiado e de forma respeitosa, proferiu: “- Desculpa. O senhor também ganha pouco.” Diante do meu olhar atônito, abandonou meu silêncio e foi procurar alguém que lhe pudesse oferecer condições mais venturosas, segundo seu julgamento. Parece piada. Antes fosse.

Os motivos que levaram aquele senhor a ter essa opinião se repetem todos os dias, e dá-se em função da nossa cultura de divulgar assuntos intramuros com pessoas que não têm o poder de mudar a nossa condição. E essa postura nos transforma numa espécie de pedinte, merecedor da compaixão de alguns, mas também maldição de outros.

Com a Força Nacional foi diferente. Às vésperas de uma olimpíada, colocou a boca no trombone e conseguiu um aumento de quase 150% na diária. De 224 reais pulou para 550 reais.

O problema foi a forma como alcançaram o intento. Além das más condições dos apartamentos em que foram alojados, alardearam também que estavam sofrendo pressão das milícias. Um absurdo!

Que vivemos num país onde “tá tudo dominado” não é novidade. Vivemos à beira do caos em todas as áreas. Agora… Uma tropa de elite assumir impotência frente à ameaça de uma milícia faz-me acreditar que essa diária já estava sendo excessivamente bem paga.

* texto publicado originariamente na coluna do Sargento Lago no Portal Stive

A opinião é do público?


Foto: Marco Aurélio Olímpio


Alvo de preocupações de órgãos públicos, empresas privadas, artistas, políticos etc, a opinião pública, quando anunciada na mídia, parece ser a própria “voz de Deus”.

Mas como sabemos a opinião sofre influência familiar, religiosa, social, econômica e, entre outras tantas, da própria mídia, tornando-se uma das principais.

Há três anos, 64% dos brasileiros eram favoráveis aos Jogos Olímpicos. Agora, a aprovação retrocedeu para 40%, de acordo com a pesquisa feita pelo Instituto Datafolha entre os dias 14 e 15 de julho.

Essa mudança na opinião do público deve-se exatamente pela divulgação diária da corrupção e da violência, logo a chamada “opinião pública” muitas vezes é particular, pessoal, de um formador de opinião.

Tais divulgações remetem as pessoas a muitos medos, inclusive o da possibilidade do país importar os atos terroristas noticiados recentemente do Estado Islâmico; como se já não tivéssemos nossas modalidades de crime tão aterrorizantes quanto, além da corrupção terrorista e da degradação moral em que vivemos.

Por falar em opinião, tenho pra mim que a realização da olimpíada no Brasil, embora com seus muitos problemas, será uma grande influência para crianças e jovens praticarem esportes. E isto, por si só, trará saúde, esperança e, o melhor, incentivo para o afastamento das drogas e do crime.

*Texto publicado originariamente na coluna do Sargento Lago no Portal Stive